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Nova espécie de rã amazônica é descoberta em áreas alagáveis da floresta

  • Foto do escritor: cbioclimamidia
    cbioclimamidia
  • 15 de jun.
  • 3 min de leitura

Por Emerson José


Pesquisadores descreveram um anfíbio até então desconhecido que habita as florestas de várzea do oeste da Amazônia Uma nova espécie de rã amazônica foi identificada por pesquisadores brasileiros e internacionais em áreas de floresta de várzea da Amazônia ocidental. Nomeada Adenomera varcena, a descoberta representa um avanço importante para o conhecimento da biodiversidade amazônica e da chamada diversidade críptica, que caracteriza duas ou mais espécies similares externamente, mas correspondem a espécies distintas com base em características acústicas e genéticas, por exemplo.


O resultado dessa pesquisa consta do artigo "A New Species of Terrestrial Foam‑Nesting Frog (Adenomera, Leptodactylidae) from the Várzea Forests of Western Amazonia", publicado recentemente pela revista científica Ichthyology & Herpetology. O professor Célio F. B. Haddad, da Unesp de Rio Claro, e o professor Thiago R. Carvalho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dois dos autores do artigo, são associados ao CBioClima. Haddad integra uma das principais redes de pesquisa em herpetologia da América Latina.


A descoberta ocorreu a partir de expedições realizadas na região do Alto Rio Juruá, no oeste do Acre, especialmente em fragmentos florestais associados aos rios Moa e Crôa, nas proximidades de Cruzeiro do Sul.


Os pesquisadores utilizaram uma abordagem metodológica integrativa com análises genéticas por sequenciamento de DNA, estudo das vocalizações, comparação morfológica, dados ecológicos sobre habitat e comparação com coleções científicas para diferenciá-la de outras espécies. O nome varcena faz referência justamente às florestas de várzea amazônicas, ecossistema com uma dinâmica de inundação sazonal, utilizado pela espécie nas áreas de estudo. O artigo destaca que o uso desse tipo de habitat representa uma descoberta a respeito do gênero Adenomera, que costuma habitar florestas de terra firme.


Adenomera varcena se diferencia das outras espécies pela ausência de uma faixa escura na superfície ventral do antebraço, vocalização reprodutiva formada por uma única nota não pulsionada, taxa de repetição extremamente baixa, duração curta e frequência dominante sempre coincidindo com o segundo harmônico.


A descoberta desta nova espécie de rã reforça o quanto a biodiversidade amazônica ainda é desconhecida, principalmente quanto a grupos de espécies morfologicamente semelhantes (diversidade críptica). O estudo também destaca que muitas linhagens de Adenomera ainda aguardam descrição formal e que novas pesquisas serão fundamentais para compreender melhor a diversificação desse grupo de anfíbios na Amazônia.


Segundo o professor Thiago R. Carvalho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), “como ainda não conhecemos em detalhe as exigências ecológicas da espécie e a sua história natural (período e modo reprodutivo), é difícil prever os impactos frente às mudanças climáticas, que podem alterar os regimes de inundação sazonal do ecossistema de florestas de várzea nessa região da Amazônia.


Como a espécie tem preferência por esse ecossistema específico, é possível sugerir que essas alterações na dinâmica das inundações possam influenciar, não sabemos até que ponto, o comportamento reprodutivo da espécie. Em um cenário de perda acelerada das áreas naturais, a descrição formal de uma nova espécie reforça o quanto ainda precisamos nos esforçar para avançar os estudos sobre a nossa biodiversidade. As espécies podem ser extintas localmente antes mesmo de se tornarem espécies formais, com a sua nomeação e descrição”.


Neste sentido, o professor Célio Haddad alerta que, “embora a descoberta de novos anfíbios seja frequente, travamos uma verdadeira corrida contra o tempo diante da degradação ambiental para catalogar nossa biota com precisão. Atualmente, o ritmo da destruição dos ecossistemas supera a capacidade de resposta dos estudos taxonômicos. Consequentemente, espécies ainda não descritas ficam de fora das listas de fauna ameaçada, permanecendo juridicamente e ambientalmente vulneráveis.


Assim, o ato de descrever novas espécies atua como uma ferramenta que auxilia na proteção. Além disso, aprofundar o conhecimento sobre a real biodiversidade expande nossa compreensão sobre a evolução dos organismos, consolidando um pilar essencial tanto para a ciência pura quanto para as estratégias de conservação”.


Além de ampliar o conhecimento científico sobre anfíbios neotropicais, a identificação de novas espécies possui impacto direto em estratégias de conservação. Sem o reconhecimento taxonômico correto, espécies raras ou restritas a determinados ambientes podem permanecer invisíveis para políticas ambientais e avaliações de risco de extinção.


A pesquisa envolveu colaboração entre instituições brasileiras e internacionais, reunindo cientistas ligados à UFMG, Unesp, USP, Universidade Federal de Uberlândia, e Universidade do Equador (PUCE-Quito).


O trabalho contou com apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e do CNPq, além de colaboração entre laboratórios especializados em genética, taxonomia e bioacústica de anfíbios.


Fêmea (parátipo)
Fêmea (parátipo)

Macho (holótipo)
Macho (holótipo)

 
 
 

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