A floresta para além das árvores": pesquisadora usa árvores e palmeiras para falar sobre pertencimento na ciência

por Carolina Medeiros
No dia 16 de setembro, o Instituto de Biologia da Unicamp recebeu mais uma edição do ciclo Diversidade em Foco, promovido pelo CBioClima. A convidada foi a professora Thaise Emilio, do LabPlanta (Instituto de Biociências, Unesp Rio Claro), com a palestra "A floresta para além das árvores: uma trajetória de pertencimento".
Ecóloga com mestrado, doutorado e pós-doutorado dedicados a florestas tropicais, Thaise estruturou a fala em torno de um provérbio inglês de quase 500 anos, atribuído a John Heywood: "não se vê a floresta por causa das árvores". A partir dessa imagem, entrelaçou sua trajetória científica com sua experiência como mulher e mãe na carreira acadêmica.
Uma cientista de origem pública
Thaise contou sua história "como quem conta a história de uma planta", em capítulos que imitam um ciclo de vida vegetal: dispersão, crescimento, estabelecimento, reprodução e senescência. Filha e neta de migrantes que buscaram São Paulo nos anos 1950, estudou toda a educação básica em escola pública, fez cursinho popular na USP e se formou na UFSCar. Para ela, a universidade pública foi transformadora não só pelas aulas, mas por tudo que a cerca — laboratórios, centros acadêmicos, intercâmbios — o "caldeirão" que produz conhecimento.
Palmeiras não são árvores
No mestrado em Ecologia na Amazônia (a partir de 2005), Thaise descobriu que cerca de 20% da área basal das florestas amazônicas é ocupada por palmeiras — a maioria sequer arborescente, o que as exclui dos inventários florestais tradicionais.
Ao longo do doutorado e do pós-doutorado (este no Royal Botanic Gardens, Kew, com bolsa Marie Curie), mostrou que palmeiras são estrutural e funcionalmente distintas de árvores: sem câmbio nem crescimento secundário, armazenam de 20% a 40% mais água em seus caules — verdadeiros "cactos da floresta", liberando essa água lentamente e sustentando fauna e atmosfera na estação seca. Mesmo assim, os modelos de vegetação dinâmica ainda tratam palmeiras como um subtipo de árvore, o que distorce estimativas de biomassa.
A régua que decide quem entra na floresta
Aqui a palestra vira. Thaise usou o DAP (diâmetro à altura do peito) — a "régua" que decide o que conta como árvore num inventário — como metáfora das métricas que a ciência usa para avaliar carreiras: "o retrato que sai não é de quem faz ciência, é de quem se parece com a régua".
Relatou então sua própria experiência de discriminação de gênero após a maternidade: com um colega de departamento que teve filho na mesma época, ela tirou licença e voltou em regime parcial, enquanto ele nunca se afastou do laboratório e logo obteve posição permanente. "O filho dele nunca apareceu no currículo; o meu aparece até hoje", resumiu — exemplo do que chamou de "taxa cultural", equivalente à taxa rosa, mas cobrada em tempo e energia.
Dados da FAPESP: o efeito tesoura
Um ponto alto foi um levantamento próprio, com apoio de IA, sobre quase 320 mil registros públicos de bolsas e auxílios da FAPESP. Mulheres são maioria ou paridade nas bolsas de formação (57% na IC, 56% no mestrado, 52% no doutorado, 47% no pós-doc), mas essa proporção cai para 41% nos auxílios Regulares e 28% nos Temáticos.
Ela chamou isso de "efeito tesoura", em paralelo ao autodesbaste florestal — com a diferença de que a competição acadêmica não ocorre em condições iguais; muitas mulheres fazem um "self-pruning" para permanecer no sistema. Historicamente, os Regulares foram de 30% (anos 1990) para 41-43% de bolsas femininas hoje; os Temáticos, de 21% para 31-33%. Numa extrapolação linear simples — apenas ilustrativa, segundo a pesquisadora —, os Regulares atingiriam paridade em 2036, e os Temáticos, só em 2067.
Por que isso importa para a ciência
Thaise citou dois estudos da PNAS: um de 2022, com 6,6 milhões de artigos, mostrando que equipes com mais diversidade de gênero têm 9,1% mais chance de publicar pesquisa inovadora e 14,6% mais chance de estar entre os 5% mais citados; e outro de 2020, sobre o "paradoxo diversidade-inovação" — cientistas de grupos sub-representados produzem proporcionalmente mais contribuições originais, mas são sistematicamente menos citados. Para ela, isso sustenta políticas afirmativas explícitas em agências como a FAPESP: "manter o sistema como está é uma escolha, não neutralidade".
Encerramento: replantar a floresta
Por fim, contou como, aos 35 anos, dados sobre desigualdade salarial no Reino Unido a levaram a fundar o grupo gender@kew, que subsidiou a certificação Athena Swan e a criação de uma diretoria de equidade na instituição. Citou também as cotas como exemplo de mudança estrutural bem-sucedida: hoje metade dos estudantes da Unesp vem de escola pública. "Não foi cada árvore crescendo mais. Foram as condições de crescimento."
A palestra terminou repetindo a citação de Heywood: assim como não se entende uma floresta árvore por árvore, as desigualdades na ciência só aparecem quando os dados são somados e olhados à distância. "Precisamos olhar para o todo."

Em breve estará disponível, no canal do CbioClima no YouTube, a palestra da Profª Drª Thaise Emilio, na integra.



Comentários