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Abelhas e beija-flores garantem a reprodução de plantas símbolo dos campos rupestres

  • Foto do escritor: cbioclimamidia
    cbioclimamidia
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Por Emerson José


Estudo recém-publicado na revista científica Annals of Botany revelou que abelhas e beija-flores desempenham papel fundamental na reprodução das espécies de canela-de-ema (Vellozia), um dos grupos de plantas mais característicos de formações montanhosas do Cerrado, os campos rupestres. O artigo revela que a presença de polinizadores garante a formação de sementes viáveis e a manutenção da diversidade genética das populações, embora várias espécies sejam capazes de produzir frutos por autofecundação.


A pesquisa foi descrita no artigo Old lineage, new insights: phenology, pollination and reproductive traits of Vellozia species from cerrado savanna mountaintop grasslands. O trabalho foi liderado pela pesquisadora Irene Gélvez-Zúñiga, com a participação da professora Patricia Morellato, ambas associadas ao CBioClima (Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima) e ao Instituto de Biociências da UNESP de Rio Claro, além de outros pesquisadores brasileiros e argentinos especializados em ecologia, fenologia e biologia reprodutiva de plantas.


A pesquisa analisou 13 espécies de canela-de-ema encontradas nos campos rupestres da Serra do Cipó, uma das regiões com maior diversidade de espécies de plantas,  em Minas Gerais, Brasil. O gênero Vellozia reúne cerca de 265 espécies distribuídas principalmente em áreas montanhosas brasileiras e constitui um dos componentes mais representativos dos campos rupestres.


As flores das canelas-de-ema são geralmente grandes, vistosas e apresentam coloração que varia do branco ao roxo intenso. Além da aparência chamativa, elas possuem mecanismos que favorecem a polinização cruzada, processo em que o pólen é transferido entre indivíduos diferentes da mesma espécie, contribuindo para aumentar a variabilidade genética das populações.


Para compreender a biologia reprodutiva das espécies, os cientistas acompanharam populações de Vellozia entre 2023 e 2025. Foram analisadas características da floração, morfologia das flores, sistemas de reprodução e a contribuição dos polinizadores para a produção de frutos e sementes.


Os pesquisadores realizaram experimentos de polinização controlada, comparando flores polinizadas manualmente, flores expostas naturalmente aos visitantes e flores isoladas para impedir o acesso dos polinizadores. Também foram avaliadas a quantidade de sementes produzidas e sua capacidade de germinação.


Para identificar os visitantes florais, foram utilizadas câmeras equipadas com sensores de movimento instaladas junto às plantas durante os períodos de floração.


Os pesquisadores identificaram dois padrões principais de floração: espécies que produzem grandes quantidades de flores em curtos períodos, principalmente durante a estação chuvosa, entre outubro e fevereiro; e espécies que apresentam floração mais prolongada, ao longo dos meses mais secos.


O estudo também registrou casos em que a floração foi estimulada pelo fogo. Em determinadas espécies, como Vellozia alata e Vellozia caruncularis, a produção de flores ocorreu poucas semanas após incêndios, indicando uma adaptação ecológica associada à dinâmica natural desses ambientes abertos do Cerrado.


Os testes de reprodução mostraram que as espécies estudadas podem produzir frutos por autofecundação. No entanto, a reprodução bem-sucedida depende fortemente da ação dos polinizadores. Em sete das 11 espécies avaliadas nos experimentos reprodutivos não houve produção de frutos ou sementes quando os polinizadores foram excluídos.


Quando alguns frutos eram produzidos sem a participação dos polinizadores, as sementes frequentemente apresentavam baixa qualidade ou não germinavam. Segundo os autores, isso demonstra que avaliar apenas a produção de frutos pode levar a conclusões equivocadas sobre o sucesso reprodutivo das plantas.


Os principais polinizadores registrados foram os beija-flores Colibri serrirostris e Chlorostilbon lucidus e abelhas do gênero Trigona, abelhas sem ferrão do grupo Meliponini. A abelha-africanizada (Apis mellifera) também foi observada visitando diversas espécies.


Os autores concluíram que, embora a autofecundação possa funcionar como uma estratégia de segurança em situações de escassez de polinizadores, a polinização cruzada continua sendo a principal forma de reprodução dessas plantas na natureza.


A redução das populações de abelhas e beija-flores pode comprometer não apenas a produção de sementes, mas também a conectividade genética entre populações vegetais, reduzindo sua capacidade de adaptação a mudanças ambientais futuras.


O campo rupestre vem sofrendo grandes ameaças a sua conservação mesmo sendo um ecossistema com grande importância na provisão de serviços ecossistêmicos (hídricos, beleza cênica etc.). Esses ecossistemas montanhosos são especialmente sensíveis aos aumentos das temperaturas, que são esperados para as próximas décadas devido às mudanças no clima, e vêm sofrendo graves transformações no uso da terra, com intervenções antrópicas como turismo desorganizado e mineração, entre outras ameaças.

“O gênero Vellozia é considerado vulnerável às mudanças do clima porque engloba um grupo de plantas características dos campos rupestres. Nosso estudo inclui quatro espécies de Vellozia consideradas como ameaçadas ou quase ameaçadas: V. alata, V. albiflora, V. glabra e V. patens. Várias espécies são endêmicas ou apresentam distribuição restrita (em pequenas manchas). Contudo, nossos resultados apontam que devemos dar uma atenção redobrada à V. taxifolia, que é uma espécie que não tem capacidade de reprodução autônoma, pois é auto incompatível, e para a V. patens, que tem uma porcentagem de produção de frutos e sementes muito reduzida em condições naturais”, alerta Irene Gélvez-Zúñiga.


Ademais, e considerando que o grupo de plantas do gênero Vellozia é diverso e com alto endemismo em ambientes de campo rupestre, o estudo tem implicações importantes para propor estratégias de conservação, voltadas para espécies endêmicas e/ou ameaçadas da flora do Cerrado.


O estudo contou com financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Projeto CEPID CBioClima #2021/10639-5) e pode ser lido na íntegra em: https://doi.org/10.1093/aob/mcag152.


Canela-de-ema encontradas nos campos rupestres da Serra do Cipó
Canela-de-ema encontradas nos campos rupestres da Serra do Cipó

Polinização por abelha e pesquisadora Irene Gélvez-Zúñiga em coleta de campo.

 
 
 

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