Como o ambiente molda a diversidade funcional de musgos na Mata Atlântica
- cbioclimamidia
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Por Carolina Ferreira Medeiros
A relação entre ambiente e vida ainda guarda muitos mistérios, e pesquisadores brasileiros estão ampliando nossa compreensão sobre como espécies respondem às variações naturais da paisagem. Um estudo recente publicado na Acta Botanica Brasilica lança luz sobre como fatores abióticos, como elevação e precipitação, podem influenciar a diversidade funcional de musgos do gênero Fissidens na Mata Atlântica.
Musgos desempenham papéis ecológicos essenciais: ajudam na retenção de água, participam de ciclos de nutrientes e servem como habitat para inúmeros microrganismos. Entender como suas características funcionais variam ao longo de um gradiente ambiental oferece pistas sobre a resiliência de comunidades biológicas frente a mudanças climáticas e fragmentação de habitats.
O estudo focou em 24 parcelas aleatórias distribuídas ao longo da Serra do Mar, um dos trechos mais representativos da Mata Atlântica no Brasil. Ali, os pesquisadores analisaram espécies de Fissidens, um grupo de musgos com grande diversidade morfológica, em relação a seis traços funcionais relacionados à sua ecologia e reprodução.
Os resultados revelaram que a chuva tem um papel fundamental em ampliar a diversidade funcional. Em áreas com maior precipitação, as comunidades de Fissidens exibiram maior riqueza funcional, o que sugere que ambientes mais úmidos conseguem abrigar uma gama mais ampla de estratégias biológicas entre as espécies, como variações estruturais nas folhas e modos de produção de esporos.
Esse padrão indica que a água não atua apenas como recurso, mas também como filtro ecológico capaz de moldar quais funções são possíveis ou vantajosas em uma comunidade. Essa constatação é importante não só para entender o passado evolutivo desses musgos, mas também para prever como eles podem responder a alterações no regime de chuvas causadas pelo aquecimento global.
Por outro lado, aumento de altitude esteve associado a maior dispersão funcional. Isso significa que, conforme se sobe a encosta da Serra do Mar, as espécies de Fissidens tendem a ocupar um espectro mais amplo de estratégias ecológicas possíveis, refletindo maiores diferenças entre os traços que cada espécie exibe.
A elevação, ao combinar variações de temperatura e umidade, cria “nichos” distintos que favorecem, por exemplo, espécies adaptadas a ambientes mais frios ou mais secos. A diversidade funcional observada nesse contexto pode estar relacionada a diferenças na fisiologia das espécies, como adaptabilidade ao estresse hídrico ou capacidade de tolerar variações térmicas.
Este estudo reforça que gradientes ambientais, especialmente de precipitação e altitude que moldam a diversidade funcional das comunidades vegetais, incluindo musgos aparentemente simples como Fissidens. A diversidade funcional é um componente crítico da biodiversidade: quanto mais funções diferentes uma comunidade pode desempenhar, mais estável e resiliente ela tende a ser diante de perturbações.
Além disso, os resultados destacam a necessidade de proteger uma variedade de ambientes ao longo de gradientes ecológicos, não apenas áreas isoladas de floresta. Essa abordagem mais ampla é essencial se quisermos manter os serviços ecológicos e a própria diversidade biológica em paisagens altamente fragmentadas como a Mata Atlântica.
Por fim, os autores sugerem que pesquisas futuras integrem experimentos controlados para entender melhor como fatores ecológicos e evolutivos interagem para moldar a diversidade funcional. Essa linha de investigação é promissora para previsões mais precisas sobre os impactos das mudanças ambientais em plantas, musgos e outros grupos menos estudados, mas igualmente valiosos do ponto de vista ecológico.
O artigo pode ser lido na íntegra em: https://doi.org/10.1590/1677-941X-ABB-2024-0122

