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Diversidade em Foco discute a Paleoclimatologia como bússola para o futuro

Foto do escritor: cbioclimamidia
cbioclimamidia
há 11 minutos
3 min de leitura

Profa Dra Marília Campos, pesquisadora do CENA/USP, mostrou como sedimentos do fundo do mar guardam lições sobre o enfraquecimento da circulação oceânica do Atlântico e seus efeitos


por Carolina Medeiros


No dia 30 de setembro, aconteceu mais uma palestra do ciclo de seminários “Diversidade em Foco – saberes e desafios diante das mudanças climáticas”; que contou com a presença da professora doutora Marília Campos. Marília é pesquisadora e professora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) da Universidade de São Paulo e do Laboratório ¹⁴C, foi a convidada do ciclo de seminários Diversidade em Foco. Em sua palestra, intitulada "Reconstituições paleoclimáticas: lições do passado para o futuro", ela apresentou ao público uma trajetória científica marcada, nas palavras da própria apresentação, por "descobertas, desafios e oportunidades".


O clima do passado guardado no fundo do mar


A palestra começou pelo básico: o prefixo "paleo", do grego antigo, indica o estudo de aspectos pretéritos, e a paleoclimatologia estuda as condições climáticas da Terra ao longo do tempo geológico por meio dos chamados arquivos paleoclimáticos. Entre eles estão anéis de crescimento de árvores, corais, espeleotemas, sedimentos laminados, gelo e pólen, fontes naturais que preservam evidências físicas, químicas ou biológicas das condições ambientais.


Marília deteve-se nos sedimentos marinhos. Partículas transportadas pelos rios e pelo vento, como minerais, matéria orgânica e pólen, somam-se a conchas e esqueletos de organismos formados na coluna d'água, como foraminíferos, cocolitoforídeos, diatomáceas e radiolários. Tudo isso se deposita e se acumula no fundo oceânico, formando camadas. Coletadas em expedições por testemunhos, essas sequências permitem reconstituir a ordem dos eventos do mais jovem ao mais antigo.

No laboratório, o material é analisado em busca de microfósseis, geoquímica, minerais e datações, entre outras análises. Cada componente funciona como um indicador (proxy): o sedimento total informa sobre paleoprecipitação e paleointemperismo; pólen, ceras de plantas e microcarvões revelam paleovegetação e paleoincêndios; e os foraminíferos contam sobre paleotemperatura, paleosalinidade e paleocirculação.


A AMOC e o que o passado ensina


O foco da linha de pesquisa principal da professora é a AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation), o sistema de correntes oceânicas que transporta massas de água pelo Atlântico, movido por diferenças de temperatura, salinidade, densidade e pela ação dos ventos. Ela destacou quatro papéis desse sistema regulação do CO₂ atmosférico, manutenção do gradiente inter-hemisférico de temperatura da superfície do mar, controle da precipitação nas baixas latitudes e influência na cobertura arbórea da América do Sul tropical.


A AMOC é considerada um tipping element do sistema climático, e seu enfraquecimento está associado a um possível tipping point. Marília apresentou o debate científico sobre o tema, que inclui estudos que apontam o enfraquecimento e até um colapso futuro e outros que indicam continuidade da circulação mesmo sob extremos climáticos. Segundo ela, as incertezas persistem: a AMOC não colapsou nem se reduziu drasticamente no período instrumental, e os modelos climáticos ainda enfrentam dificuldades em simular tipping elements.


É aí que entram os sedimentos marinhos, que registraram eventos pretéritos de enfraquecimento da circulação, os chamados Heinrich stadials (HS). Esses registros fornecem lições sobre as consequências para: circulação profunda e CO₂ atmosférico, aumento da temperatura do Atlântico Sul, precipitação e cobertura arbórea da Floresta Amazônica.



Uma trajetória "em camadas"


Na segunda parte da palestra, Marília usou a imagem de um testemunho sedimentar para contar sua própria história, uma "trajetória em camadas", com eventos depositados ao longo do tempo. A base é a vida pré-acadêmica, marcada pelo interesse pela natureza, sobre a qual vieram a graduação em Gestão Ambiental na EACH/USP (que ela definiu como a base interdisciplinar para as camadas seguintes), o mestrado e o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade da EACH/USP, ambos com bolsas FAPESP, e períodos de pesquisa no MARUM, da Universidade de Bremen, na Alemanha.


Em seguida, Marília iniciou seu pós-doutorado no Instituto de Geociências da USP, com estágio na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e o período como pesquisadora visitante no Instituto de Geociências da Unicamp, com o projeto ThE South Atlantic on a 2°C waRmeR plAnet (TERRA), apoiado pelo Programa Nova Geração de Pesquisadores da FAPESP. O projeto investiga o papel do Atlântico Sul em um planeta 2 °C mais quente, com abordagem multiproxy em sedimentos marinhos, e alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 13 (ação contra a mudança global do clima), 14 (vida na água) e 15 (vida terrestre).


A camada mais recente da trajetória é a aprovação, em fevereiro de 2026, em concurso para Professor Doutor no CENA/USP, na área de Radiocarbono e Estudos de Reconstituição Paleoambiental, com atuação no Laboratório ¹⁴C e na Divisão de Desenvolvimento de Métodos e Técnicas Analíticas Nucleares (DVTEC). Ela também ministra as disciplinas Paleobiologia, para o curso de Ciências Biológicas da ESALQ/USP, e Técnicas Isotópicas e Métodos Analíticos em Estudos de Reconstituição Paleoambiental, no PPG-Ciências.

 

A palestra na integra está disponível no canal ldo CBioClima no YouTube: https://youtu.be/GVLIzu3LnC0



 
 
 

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