Como grandes herbívoros moldam o solo das florestas?
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Por: Gabriela Andrietta
Animais de grande porte exercem impactos importantes sobre processos fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas florestais. E não é apenas acima do solo. Esses efeitos subterrâneos são o foco do artigo “Belowground effects of ground-dwelling large herbivores in forest ecosystems”, publicado no Journal of Animal Ecology. O estudo apresenta as evidências sobre como grandes herbívoros terrestres, como cervos, javalis, queixadas, e antas , influenciam a serapilheira (camada de material orgânico — folhas, galhos, frutos e restos de animais que recobre o solo de florestas e ecossistemas) e o solo.
A pesquisa é conduzida por Letícia Gonçalves Ribeiro, Mateus Melo-Dias, Beatriz Maria Paccas Saraiva, Nacho Villar e conta com a supervisão do Dr. Mauro Galetti. A autora principal, Letícia Gonçalves Ribeiro, é doutoranda da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e integra o Núcleo de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças Climáticas (CBioClima), em Rio Claro (SP). O artigo faz parte de sua tese de doutorado, que investiga como grandes herbívoros alteram a serapilheira e o solo e de que forma essas mudanças afetam a ciclagem de nutrientes, com especial atenção às florestas tropicais.
Os efeitos dos grandes herbívoros vão muito além do que é visível na superfície. “Esses herbívoros influenciam o solo da floresta por meio do pisoteio, de suas fezes e da busca por alimento, afetando a camada de serapilheira e as propriedades do solo. Ao fazer isso, os grandes herbívoros influenciam a ciclagem de nutrientes, o processo pelo qual elementos essenciais como carbono, nitrogênio e fósforo são reutilizados e reciclados nos ecossistemas, apoiando o crescimento das plantas e sustentando a floresta.”, explica Letícia, autora principal do artigo.
O pisoteio pode compactar o solo ou misturar suas camadas superficiais. A alimentação, por exemplo, altera a quantidade e a qualidade do material vegetal que cai no chão da floresta e as fezes devolvem nutrientes ao sistema. Em conjunto, esses fatores impactam os processos ecológicos e a velocidade de decomposição da matéria orgânica.
Efeitos distintos em diferentes florestas
A investigação realizada pelos autores mostra que os impactos dos herbívoros variam significativamente conforme o tipo de floresta, a fisiologia dos animais e os seus hábitos alimentares. "Apesar da abundância de herbívoros selvagens, sabemos surpreendentemente pouco sobre seus efeitos nos processos subterrâneos das florestas. A maioria dos estudos se concentrou em pastagens africanas e temperadas, onde os herbívoros frequentemente estimulam o crescimento das plantas e aceleram a ciclagem de nutrientes sob certas condições do solo. Nas florestas, no entanto, os herbívoros tendem a se alimentar seletivamente de partes das plantas que são mais fáceis de digerir, deixando para trás alimentos que levam tempo para se decompor. Isso pode retardar a ciclagem de nutrientes, mas, como nossa pesquisa sugere, os efeitos variam dependendo do tipo de floresta e da espécie de herbívoro envolvida.”, afirma Letícia. A maior parte dos estudos se concentrou em pastagens africanas e ecossistemas temperados, onde os herbívoros frequentemente estimulam o crescimento das plantas e aceleram a ciclagem de nutrientes sob determinadas condições. “Considerando essas diferenças entre os tipos de floresta, os efeitos dos herbívoros também não devem ser os mesmos em todas elas. Alguns herbívoros podem desacelerar a ciclagem de nutrientes em um tipo de floresta, enquanto a aceleram em outro. A sua influência também depende de sua composição de espécies, hábitos alimentares, fisiologia e comportamento. Apesar de décadas de pesquisa, nossa compreensão desses processos permanece limitada, especialmente em florestas tropicais, que, apesar de abrigarem a maior diversidade de herbívoros, continuam sendo pouco estudadas", complementa.
Embora as florestas tropicais concentrem a maior diversidade de grandes herbívoros do planeta, ainda há poucos estudos sobre processos abaixo do solo. Essa lacuna é particularmente preocupante diante do avanço da defaunação, a perda progressiva de grandes animais causada pela caça, fragmentação de habitats e mudanças no uso da terra.
Diferenças na fisiologia e no tamanho dos herbívoros importam
O estudo destaca ainda que nem todos os herbívoros são iguais. Essas diferenças determinam como e em que forma os nutrientes retornam ao solo. "Os grandes herbívoros variam amplamente em sua fisiologia e estratégias de alimentação, e essas diferenças têm consequências importantes para a funcionalidade do ecossistema florestal. Alguns herbívoros, como os ruminantes (por exemplo, veados, bovinos, caprinos), têm estômagos complexos que lhes permitem digerir material vegetal de alta qualidade com eficiência. Por outro lado, os herbívoros não ruminantes (por exemplo, antas, javalis, elefantes) têm sistemas digestivos mais simples e processam maiores quantidades de alimentos de menor qualidade em uma velocidade maior do que os ruminantes. Essas diferenças afetam o que eles comem e como os nutrientes retornam ao solo.” explicou a autora.
Os hábitos alimentares também variam entre pastadores, ramoneadores ( são herbívoros, como os caprinos, que preferem se alimentar de arbustos, folhas, brotos e frutos, em vez de gramíneas rasteiras) e espécies de dieta mista. Letícia ilustrou que "Os herbívoros também diferem em seus hábitos alimentares. Alguns são pastadores (por exemplo, o bisão), alimentando-se principalmente de grama; outros são ramoneadores (por exemplo, o alce), comendo folhas e brotos; e alguns têm dieta mista (por exemplo, o cervo-vermelho). Nas florestas tropicais, a maioria dos herbívoros são frugívoros (por exemplo, a anta-da-planície, o cateto), consumindo frutos e sementes que caem no solo da floresta. Flutuações sazonais na disponibilidade de recursos podem forçar os herbívoros a mudar suas dietas; por exemplo, os frugívoros podem passar a se alimentar de folhas durante períodos de escassez de frutos."
Além dos hábitos alimentares, espécies maiores consomem mais alimento e o retêm por mais tempo no sistema digestivo, o que pode aumentar a assimilação de nutrientes e influenciar a quantidade e a qualidade das fezes, que é um componente crucial da fertilidade do solo."O tamanho do corpo também importa. Espécies maiores consomem mais alimento e o retêm por mais tempo em seu sistema digestivo, o que pode melhorar a assimilação de nutrientes e influenciar a quantidade e a qualidade de suas fezes, um fator importante.
O artigo reforça que os grandes herbívoros são peças-chave no funcionamento das florestas, inclusive nos processos invisíveis que ocorrem abaixo do solo. A perda desses animais pode desencadear mudanças profundas na ciclagem de nutrientes, afetando a produtividade, a composição das comunidades vegetais e a resiliência dos ecossistemas frente às mudanças climáticas.

Alce (Alces alces), um herbívoro terrestre que vive no solo. Crédito: Mauro Galetti.



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