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Diversidade em Foco: a pesquisadora Laurence Culot compartilha reflexões sobre diversidade, ciência e mudanças climáticas

  • Foto do escritor: cbioclimamidia
    cbioclimamidia
  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

No último dia 3 de junho o “Diversidade em Foco: Saberes e Desafios Diante das Mudanças Climáticas”, teve o prazer e receber a professora doutora Laurence Culot. A professora possui graduação em Ciências Biológicas (2003), mestrado em Ciências Biológicas - orientação biologia animal (2005) e doutorado europeu em Ciências (2009) pela Universidade de Liege (Bélgica), e doutorado com período sanduíche no Deutsches Primatenzentrum de Goettingen (Alemanha).

A professora estudou os primatas na África (Guiné), na Amazônia (Peru) e agora na Mata Atlântica brasileira. Sua principal área de interesse é a ecologia de primatas em geral, na qual investiga o potencial de resiliência dos primatas na paisagem, usando uma abordagem multidisciplinar (ecologia comportamental, ecologia da paisagem, ecologia de movimento, fisiologia, saúde única, e genética da conservação).

 

 Uma trajetória construída entre continentes

Intitulada “Primatas, Fronteiras e Maternidade: cruzando fronteiras – reflexões de uma primatóloga sobre diversidade na ciência”, a palestra reuniu experiências acumuladas ao longo de mais de duas décadas de atuação em diferentes países, destacando como a diversidade de perspectivas é fundamental para enfrentar os desafios científicos e socioambientais contemporâneos.

Laurence apresentou ainda uma reflexão pessoal e profissional sobre os caminhos que a levaram da Bélgica à América Latina, discutindo temas como gênero na ciência, maternidade, internacionalização da pesquisa e a necessidade de descolonizar a produção do conhecimento.

Culot contou sobre o início de sua carreira, marcada por uma viagem à Guiné, na África Ocidental, estudando babuínos em uma experiência que descreveu como seu primeiro grande choque cultural. Mais tarde, realizou seu doutorado na Amazônia peruana, investigando espécies de saguis e aprofundando sua convivência com comunidades locais.

A pesquisadora também passou pelo Centro Alemão de Primatas, na Alemanha, durante o doutorado, experiência que ampliou suas redes internacionais de pesquisa. Desde 2010, desenvolve sua carreira acadêmica no Brasil, onde realizou pós-doutorado e, posteriormente, tornou-se docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro.

Ao longo da apresentação, ela destacou que sua trajetória foi marcada pelo constante cruzamento de fronteiras geográficas, culturais e linguísticas, experiências que moldaram sua forma de compreender a ciência e sua relação com as sociedades onde ela é produzida.

Mulheres na primatologia

Outro tema presente na palestra foi a forte presença feminina na primatologia, por meio de dados que mostram que a participação de mulheres na área historicamente supera a observada em outras ciências da vida. Segundo a pesquisadora, esse cenário pode ser explicado por diferentes fatores, incluindo o surgimento relativamente recente da primatologia como campo científico, o crescimento da área durante períodos de intensa mobilização dos movimentos femininos e sua proximidade com disciplinas tradicionalmente mais abertas à participação das mulheres, como psicologia, antropologia e comportamento animal.

A professora relembrou também o papel das pioneiras conhecidas como as “Trimates” de Louis Leakey — Jane Goodall, Dian Fossey e Birutė Galdikas — que transformaram a pesquisa de campo com primatas e abriram caminho para gerações de mulheres cientistas. Apesar dos avanços, a palestrante destacou que desigualdades persistem. “Embora haja grande presença feminina na formação e na pesquisa, homens ainda ocupam, proporcionalmente, mais posições de liderança acadêmica, refletindo a permanência de barreiras estruturais na carreira científica”, enfatizou Laurence.

 

Ciência, maternidade e os desafios da mobilidade

A conciliação entre a carreira científica e a maternidade também esteve presente na fala de Culot, que compartilhou reflexões sobre como a chegada dos filhos altera a dinâmica do trabalho de campo, a disponibilidade de tempo, a mobilidade internacional e até mesmo a forma de lidar com situações de risco em ambientes remotos.

A pesquisadora também discutiu os desafios enfrentados por mulheres que realizam trabalho de campo sozinhas, especialmente em regiões isoladas. Questões relacionadas à segurança, à necessidade constante de demonstrar credibilidade profissional e à complexa logística de viagens internacionais fazem parte da realidade de muitas cientistas. Para ela, reconhecer essas dificuldades é fundamental para construir ambientes acadêmicos mais inclusivos e capazes de acolher diferentes trajetórias profissionais.

 

A importância de descolonizar a ciência

Na parte final da palestra, Culot abordou um tema cada vez mais presente nos debates científicos: a descolonização da produção do conhecimento. ELa refletiu sobre a lógica histórica que frequentemente coloca instituições do Norte Global como financiadoras, formuladoras de teorias e principais beneficiárias do reconhecimento científico, enquanto países do Sul Global permanecem associados principalmente à coleta de dados e ao fornecimento de áreas de estudo.

Segundo ela, sua própria percepção sobre essas desigualdades mudou ao longo dos anos. Se no início da carreira tinha pouca consciência dessas dinâmicas, a experiência de construir sua trajetória acadêmica no Brasil permitiu que observasse de forma mais crítica o eurocentrismo presente em diversos espaços científicos.

Nesse contexto, defendeu a valorização da ciência produzida no Sul Global, baseada em parcerias genuínas, no reconhecimento do papel de pesquisadores locais e na construção conjunta do conhecimento com as comunidades envolvidas.

 

Diversidade para enfrentar os desafios do futuro

Ao encerrar sua apresentação, Laurence Culot destacou que a convivência com os primatas ao longo de décadas lhe ensinou uma importante lição sobre cooperação e sobrevivência coletiva. “Observar primatas por décadas ensina que hierarquia sem cuidado não sustenta grupo nenhum. Ciência sem equidade não sustenta conhecimento nenhum”, concluiu.



 
 
 

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