Ecologia e conservação em tempos desafiadores: pesquisadora da Unicamp defende restaurar e valorizar os ecossistemas abertos do Cerrado

Em palestra no ciclo Diversidade em Foco, a professora Natashi Pilon mostrou por que a ciência precisa chegar às políticas públicas e por que os campos e savanas merecem a mesma atenção dada às florestas.
No dia 21 de outubro, o Instituto de Biologia (IB) da Unicamp recebeu a professora e pesquisadora Natashi Pilon, do Laboratório de Ecologia e Manejo de Savanas (LEMaS), na atividade Diversidade em Foco: saberes e desafios diante das mudanças climáticas. A palestra teve o título “Ecologia e Políticas de Conservação em Tempos Desafiadores: Por que se importar?”.
Um tempo de incertezas sobrepostas
Natashi começou situando o público no que chamou de “quadra histórica de incertezas e desafios”. Segundo ela, a crise climática e ambiental se soma a outras transições profundas, como a revolução tecnológica e a inteligência artificial, a nova ordem geopolítica multipolar, e um cenário de desigualdade e de polarização alimentada pelas redes sociais. É nesse contexto que a pesquisadora colocou a pergunta que guiou sua fala: por que se importar?
O Cerrado mudou, e muito
A professora trabalha com conservação, manejo e restauração de ecossistemas abertos tropicais, isto é, as formações campestres e savânicas do Cerrado. E para ilustra a urgência de conservação e restauração desse bioma, Natashi apresentou comparações de imagens do Cerrado no Brasil Central em 1984 e hoje. Ela citou ameaças que atingem os ecossistemas abertos naturais: a conversão do uso da terra, o adensamento da vegetação, a invasão por pinus e por gramíneas não nativas e o florestamento. Lembrou ainda dados do MapBiomas segundo os quais o Cerrado ultrapassou a Amazônia em área convertida no país.
É possível restaurar o Cerrado?
Essa foi outra pergunta que norteou a apresentação da professora, que explicou que o Cerrado tem como fisionomia predominante a savana e que não é feito apenas de árvores: o estrato rasteiro, de plantas pequenas, concentra cerca de 70% da diversidade de espécies do bioma.
Ela apresentou resultados de pesquisas de seu grupo e de colaboradores sobre regeneração natural, plantio de mudas e semeadura direta de espécies-chave. A conclusão foi direta: nenhuma técnica, isoladamente, é capaz de recuperar todas as formas de crescimento das plantas. Ainda restam, segundo ela, perguntas em aberto sobre a diversidade das plantas pequenas, sua distribuição em gradientes ambientais, os fatores que a condicionam e o que garante sua resiliência.
O desafio de enxergar os campos
Um dos pontos centrais foi a dificuldade de reconhecer e valorizar as fisionomias não florestais. Natashi mostrou casos em São Paulo em que campos naturais, inclusive cerca de 2 mil hectares numa fazenda em Iaras, não aparecem no mapeamento oficial de vegetação nativa. Também mostrou áreas de campo úmido em Campos Novos Paulista onde se exige a “restauração da mata ciliar”.
Segundo a pesquisadora, esse tipo de exigência pode levar a desperdício de recursos, ao fracasso das mudas plantadas e à destruição de um ecossistema natural e de sua biodiversidade. Ela citou ainda o plantio de mudas de árvores em veredas da Chapada dos Veadeiros. A pergunta que deixou ao público foi se tais áreas são um passivo ambiental ou áreas naturais remanescentes que simplesmente não foram contabilizadas.
Da ciência às políticas públicas
A pesquisador relatou ainda que sua atuação vai além da academia. Entre os exemplos, citou consultorias a empresas e ao Ministério Público, cursos online e a participação em um guia de orientação para técnicos da CETESB. Hoje, participa de uma rede internacional que reúne 130 especialistas em ecossistemas abertos (savanas, campos e shrublands), de 83 instituições e 26 países, com representantes de todos os continentes.
Ela mencionou também a atuação em cursos, manuais, grupos de trabalho, planos de ação nacionais e territoriais e a articulação com diferentes setores do governo, incluindo a construção da Estratégia Nacional para a Conservação, Restauração, Uso Sustentável e Repartição de Benefícios dos Ecossistemas Abertos Nativos.
Uma trajetória construída na universidade pública
A palestra teve também um tom pessoal. Natashi contou que nasceu em João Ramalho (SP) e se descreveu como “mais uma criança da roça que virou Dr. graças ao ensino público e gratuito”. Falou da graduação em Ciências Biológicas em Assis (SP), da iniciação científica na Estação Ecológica e Floresta Estadual de Assis, com bolsas do CNPq e da FAPESP, e da influência da pesquisadora Giselda Durigan, a quem chamou de mentora. Passou pelo PPG em Ecologia da Unicamp, por um pós-doutorado em 2021 e pelo ingresso como docente da universidade em 2023. Ela lembrou ainda que a pandemia de 2020 a levou a atuar fora da academia, e que “o obstáculo se tornou o caminho”.
Por que se importar?
No encerramento, a professora argumentou que cursos, manuais e grupos de trabalho “não aumentam o índice H”, mas ajudam a garantir que a próxima geração ainda possa se apaixonar pelo Cerrado. Fechou com uma citação do livro Ecologia de Indivíduos a Ecossistemas (Begon et al., 2006): os ecólogos do futuro enfrentam dois desafios igualmente urgentes, avançar a ciência e envolvê-la profundamente nas políticas locais, nacionais e globais.

Em breve será disponibilizado no Youtube do CBioClima, a palestra na íntegra.



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