Urbanização reduz biodiversidade e altera o funcionamento de rios e riachos na região metropolitana de São Paulo

Por Emerson José
A expansão urbana pode transformar profundamente os ecossistemas naturais. Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Nature Cities mostra que esse processo tem efeitos danosos sobre rios e riachos da Região Metropolitana de São Paulo, o que afeta a quantidade, a diversidade de organismos, a estrutura das relações alimentares e o fluxo de energia nesses ambientes. Isso significa que as relações entre as espécies e os processos que fazem os rios e riachos funcionarem como ecossistemas podem ser comprometidos.
A pesquisa foi motivada pela necessidade de compreender de que maneira o avanço da urbanização interfere no funcionamento dos ecossistemas de água doce. A Região Metropolitana de São Paulo concentra mais de 22 milhões de habitantes, o que oferece um cenário importante para pesquisa por apresentar um amplo espectro de ocupação urbana, desde áreas com maior cobertura florestal até ambientes fortemente urbanizados.
Os pesquisadores realizaram amostragens comparativas em riachos de cabeceira distribuídos por microbacias hidrográficas da região do Alto Tietê. Os ambientes foram analisados ao longo de um gradiente de cobertura urbana das áreas de drenagem. Dessa maneira, foi possível comparar comunidades aquáticas submetidas a diferentes níveis de urbanização e avaliar como a expansão das cidades estava associada às mudanças na biodiversidade e na organização dos ecossistemas.
O artigo científico originado do estudo foi publicado em agosto último na revista científica Nature Cities com o título “Urban expansion and the collapse of tropical stream ecosystems”. Victor Saito, professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e Luis Schiesari da USP (Universidade de São Paulo), ambos pesquisadores associados ao CBioClima (Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima), lideraram o estudo. Entre os autores está também o professor Tadeu Siqueira, do Departamento de Biodiversidade do Instituto de Biociências da UNESP de Rio Claro e coordenador de Integração do CBioClima. Também participaram pesquisadores da USP, UNESP de São José do Rio Preto, UNICAMP, UNESP de Botucatu e UFABC, incluindo Gabriel Brejão, outro pesquisador associado ao CBioClima.
Um dos focos do trabalho foi analisar a estrutura de tamanho dos organismos que formam as comunidades dos riachos. Os pesquisadores observaram que a redução da biodiversidade provocada pela urbanização não ocorreu de maneira aleatória. O avanço da urbanização na Região Metropolitana de São Paulo eliminou seletivamente organismos de diferentes faixas de tamanho, incluindo espécies muito pequenas e outras de tamanho moderado e grande.
O resultado foi uma mudança profunda na composição das comunidades. Nos riachos mais urbanizados, passaram a predominar organismos de pequeno porte, enquanto a amplitude de tamanhos encontrada nas comunidades diminuiu de forma acentuada. Em comparação com os riachos associados a ambientes de floresta, essa redução chegou a quatro ordens de magnitude.
Ademais, a alteração não ficou restrita a quais espécies estavam presentes nos riachos. A pesquisa mostrou que a perda de biodiversidade também atingiu a estrutura das redes alimentares. Em ecossistemas menos urbanizados, essas redes apresentavam mais de 150 relações tróficas, ou seja, conexões que representam as relações de alimentação entre diferentes organismos. Nos riachos mais urbanizados, foram encontradas redes com apenas três conexões.
Essa simplificação tem consequências para o funcionamento do ecossistema, uma vez que as relações alimentares representam caminhos pelos quais energia e carbono fluem entre os organismos. Com menos espécies e menos conexões entre elas, o sistema perde parte de sua complexidade e de sua capacidade de sustentar diferentes processos ecológicos.
Os pesquisadores estimaram uma redução de 1.446 vezes no fluxo de energia entre as comunidades dos riachos mais afetados pela urbanização quando comparadas às comunidades dos riachos em áreas de floresta. O resultado aponta que a urbanização não significa apenas redução no número de espécies: ela pode alterar profundamente a maneira como o ecossistema funciona.
Essa constatação é muito importante porque processos como a ciclagem de nutrientes são fundamentais para o funcionamento dos rios e para os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem à sociedade. Desta forma, a degradação das comunidades aquáticas e de suas redes alimentares pode produzir consequências que vão além da perda de biodiversidade.
O estudo representa um avanço justamente por analisar a urbanização a partir de uma perspectiva que vai além da simples contagem de espécies. Ao investigar simultaneamente biodiversidade, tamanho dos organismos, estrutura das redes alimentares e fluxo de energia e carbono, os pesquisadores conseguem demonstrar que a transformação dos riachos ocorre em diferentes níveis de organização ecológica.
Os resultados oferecem uma dimensão importante sobre os efeitos da expansão urbana sobre os ambientes de água doce. O trabalho mostra que a transformação dos riachos pode comprometer tanto a presença de determinadas espécies quanto às relações ecológicas que mantêm o funcionamento desses sistemas.
A pesquisa também reforça a importância de considerar os riachos como ecossistemas completos, não apenas como canais de água inseridos em áreas urbanas. A perda de espécies e de conexões alimentares representa uma transformação estrutural desses ambientes, com potencial para comprometer processos ecológicos essenciais.
Nesse contexto, compreender como os riachos respondem ao avanço das cidades pode contribuir para aprimorar estratégias de conservação, planejamento urbano e recuperação de ambientes aquáticos. Por fim, o estudo fornece uma base científica para avaliar os impactos da urbanização considerando a presença ou ausência de espécies e a integridade das relações ecológicas e do fluxo de energia que sustentam os ecossistemas.
A pesquisa contou com financiamento da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da USP e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, Projeto CEPID CBioClima #2021/10639-5) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pode ser lida na íntegra em: DOI: 10.1038/s44284-026-00495-z.




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