Estudo na Mata Atlântica revela que mamíferos moldam a fertilidade do solo nas florestas
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Por Emerson José
A presença de grandes mamíferos altera a composição do solo, influencia a ciclagem de nutrientes e afeta o funcionamento das florestas tropicais
Um estudo recém-publicado na revista científica Ecological Monographs intitulado Mammals’ Zoogeochemical Effects Change Litter and Soil Biogeochemistry in a Tropical Rainforest demonstra que os mamíferos, além de dispersarem sementes e contribuírem na manutenção do equilíbrio ecológico, também modificam diretamente as características químicas do solo e contribuem para processos fundamentais da ciclagem de nutrientes nas florestas tropicais.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Unesp e colaboradores internacionais, sob a liderança de Letícia Gonçalves Ribeiro, e contou com a participação do pesquisador Mauro Galetti, coordenador de Disseminação do CBioClima (Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima), sediado na Unesp de Rio Claro. Os resultados indicam que a biomassa (quantidade de matéria viva representada pelos mamíferos presentes na área) pode acelerar processos ecológicos e permitir que elementos essenciais retornem ao solo e sejam reutilizados por plantas e outros organismos.
Para compreender essas interações ecológicas, os pesquisadores utilizaram uma estrutura experimental instalada há 14 anos em uma área de Mata Atlântica. Algumas parcelas permaneceram abertas à circulação dos animais, enquanto outras foram cercadas para impedir a entrada dos mamíferos terrestres.
Ao longo de um ano, a equipe monitorou a presença dos mamíferos, estimou sua biomassa e coletou amostras de solo e serrapilheira (camada de matéria orgânica acumulada sobre o chão da floresta) durante as estações seca e chuvosa. A biomassa registrada foi composta principalmente por grandes frugívoros, como antas, queixadas e veados, além de mamíferos de médio e pequeno porte.
Os cientistas analisaram uma série de variáveis químicas e biológicas relacionadas ao funcionamento do solo, incluindo nutrientes, matéria orgânica, atividade microbiana, densidade do solo e composição da serrapilheira. Entre os resultados observados, destaca-se o aumento do pH do solo nas áreas frequentadas pelos animais. “Até agora não tínhamos dados sobre o papel dos grandes mamíferos tropicais no solo das florestas, por isso esse trabalho cobre uma lacuna enorme em nosso conhecimento”, complementa Mauro Galetti, um dos autores do trabalho.
“Esses resultados ampliam a compreensão sobre o papel ecológico de grandes mamíferos como antas e queixadas nas florestas tropicais. Tradicionalmente, esses animais são reconhecidos principalmente pela dispersão de sementes e pelos efeitos sobre a vegetação. No entanto, o estudo mostra que suas funções vão além daquilo que é visível na superfície da floresta. Espécies como a anta, ao se deslocarem e pisotearem o solo, e as queixadas, ao forragearem em grupo e revirarem o solo em busca de alimento, promovem um processo chamado bioturbação”, de acordo com Letícia. Essas ações contribuem para acelerar a decomposição da matéria orgânica e a circulação de nutrientes no ecossistema.
Esse comportamento pode modificar diretamente a estrutura do solo e da serapilheira, influenciando suas propriedades físicas e químicas. Como consequência, essas alterações podem afetar a decomposição da matéria orgânica e potencialmente acelerar a ciclagem de nutrientes, evidenciando que esses mamíferos exercem um papel fundamental também nos processos subterrâneos do ecossistema.
Uma das principais implicações do estudo está relacionada à perda de grandes animais nas florestas tropicais. Espécies como a anta (Tapirus terrestris) e a queixada (Tayassu pecari) vêm sofrendo declínios populacionais em diversas regiões da Mata Atlântica em razão da caça, da perda de habitat e de outras atividades humanas.
De acordo com os autores, a redução desses mamíferos pode desencadear efeitos em cascata que atingem não apenas a vegetação, mas também a serrapilheira, o solo e a disponibilidade de nutrientes. Esse processo é conhecido como defaunação e pode comprometer processos ecológicos invisíveis, porém fundamentais para a manutenção da floresta.
O estudo também aponta que os efeitos dos mamíferos foram mais evidentes durante a estação seca. Isso sugere que alterações nos regimes de temperatura e precipitação previstas para as próximas décadas poderão modificar a intensidade dessas interações ecológicas.
Ao demonstrar que os mamíferos influenciam diretamente a química do solo e a dinâmica dos nutrientes, o estudo amplia a compreensão sobre o papel da fauna nos ecossistemas e oferece novos argumentos para políticas de conservação e restauração ambiental em biomas altamente ameaçados, como a Mata Atlântica.
O estudo contou com financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e está disponível na íntegra no link https://doi.org/10.1002/ecm.70070.

























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