Línguas e culturas indígenas ampliam o debate sobre diversidade e mudanças climáticas
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Professora Ivana Pereira Ivo participou do ciclo Diversidade em Foco, promovido pelo CBioClima por meio da Diretoria de Diversidade, Equidade e Inclusão
A diversidade dos povos indígenas brasileiros também se expressa na multiplicidade de línguas, culturas e formas de produzir conhecimento. Esse foi um dos pontos centrais da apresentação da professora Ivana Pereira Ivo, do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), durante o ciclo Diversidade em Foco – Saberes e Desafios diante das Mudanças Climáticas, que aconteceu no último dia 05 de agosto no Instituto de Biologia da Unicamp.
Com a palestra “Povos, línguas e culturas indígenas: percursos e aprendizados”, Ivana Ivo destacou a necessidade de reconhecer a diversidade existente entre os povos indígenas, evitando tratá-los como um grupo homogêneo. Diferentes sociedades possuem diferentes culturas e línguas, que também são transformadas pelas relações estabelecidas entre os próprios povos e com as sociedades não indígenas.
O contato entre línguas transforma os modos de falar
Um dos exemplos apresentados por Ivana Ivo envolve o contato entre o Guarani e o espanhol, especialmente em regiões de fronteira. A pesquisadora mostrou como o encontro entre línguas pode provocar ajustes fonéticos e fonológicos, revelando que os falantes incorporam elementos de outros idiomas de acordo com as características de sua própria língua.
Entre os fenômenos discutidos estão as chamadas epênteses — inserções de vogais em determinadas palavras — e ajustes relacionados ao ponto de articulação dos sons. A apresentação também aborda características fonológicas do Guarani-Mbyá na adaptação de palavras provenientes do espanhol.
O contato linguístico também aparece no contexto de comunidades multilíngues. No Oiapoque, por exemplo, são mencionados povos como Karipuna, Galibi, Galibi Marworno e Palikur, que utilizam diferentes línguas em situações distintas, incluindo línguas indígenas, o Patuá, o português e o francês.
Outro caso apresentado é o dos povos do Alto Rio Negro, região marcada por uma longa história de contato entre diferentes famílias linguísticas. Segundo o material apresentado, Tukano Oriental, Naduhup, Aruak e Tupi-Guarani convivem na região há pelo menos seis séculos. Aproximadamente 24 línguas são faladas nessa área, sendo 15 delas no Brasil.
Nesse contexto, a diversidade linguística está relacionada também às relações sociais, aos modos de subsistência e às regras de casamento entre os diferentes povos. A apresentação destaca ainda distinções entre povos da floresta e povos dos rios e a existência de uma hierarquia social que ajuda a explicar o multilinguismo característico da região.


Quando uma língua desaparece, o que se perde?
A palestra também chamou atenção para outro aspecto fundamental: os processos de substituição linguística. Em diferentes contextos, o contato entre sociedades resultou na substituição de línguas indígenas pelo português. A apresentação cita como exemplos grupos indígenas do Nordeste brasileiro, como Pankaru, Payayá, Kiriri e Kaimbé.
Diante desse cenário, iniciativas de retomada linguística podem recorrer a fontes históricas, possíveis memórias lexicais e outros registros que contribuam para recuperar conhecimentos relacionados às línguas. O caso dos Kiriri, na Bahia, é apresentado como exemplo desse tipo de iniciativa.
A preservação e o fortalecimento das línguas indígenas, portanto, ultrapassam a questão estritamente linguística. As línguas são parte dos patrimônios culturais e dos modos pelos quais diferentes povos constroem, transmitem e compartilham seus conhecimentos.
Protagonismo indígena e produção de conhecimento
Ao final da apresentação, Ivana Ivo destacou a importância de repensar a forma como os povos indígenas são abordados pelas pesquisas. Um dos caminhos apontados é a busca pela não objetificação dos povos indígenas, associada à valorização de seu protagonismo na produção do conhecimento.
Essa perspectiva também se relaciona à necessidade de políticas linguístico-educacionais capazes de considerar as especificidades de cada povo. Entre as ações destacadas estão a produção de materiais didáticos em línguas indígenas, a formação de professores indígenas e outras iniciativas voltadas ao fortalecimento dessas línguas.
Diversidade como parte do debate sobre o futuro
Ao trazer para o Diversidade em Foco o debate sobre línguas e culturas indígenas, a apresentação amplia a compreensão sobre diversidade e sobre os diferentes conhecimentos que precisam estar presentes nas discussões sobre os desafios contemporâneos.
Valorizar as línguas indígenas significa reconhecer a existência de diferentes sociedades, histórias, culturas e formas de produzir conhecimento. Também significa compreender que os impactos e desafios associados às transformações ambientais não podem ser dissociados das comunidades e dos territórios onde esses conhecimentos são produzidos e transmitidos.
Nesse sentido, a discussão proposta por Ivana Ivo contribui para uma perspectiva de diversidade que não se limita à representação, mas envolve escuta, reconhecimento, protagonismo e fortalecimento dos saberes indígenas — elementos fundamentais para ampliar o diálogo sobre biodiversidade, mudanças climáticas e os diferentes caminhos para construir um futuro mais inclusivo.
Confira a palestra na íntegra no Canal do Youtube do CBioClima: https://youtu.be/DHHyN9el0zM




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