Vespas têm papel-chave como polinizadoras em ecossistema tropical
- cbioclimamidia

- há 18 minutos
- 3 min de leitura
Por Emerson José
Um estudo recente publicado no Journal of Applied Entomology revela que vespas podem ser polinizadoras mais importantes que o esperado em ecossistemas tropicais biodiversos como o Cerrado. As vespas são, tradicionalmente, mais associadas apenas à predação e ao parasitismo, mas pesquisas demonstram que esses insetos podem ser polinizadores efetivos e mesmo especializados de certas espécies. Nesse estudo os pesquisadores desvendam como as vespas são polinizadores importantes em ecossistemas tropicais altamente diversos.
Os cientistas reuniram e analisaram dados sobre interações planta-vespa, explorando como características florais (cor, forma, horário de abertura das flores) se relacionam com aspectos das vespas (hábito de alimentação, comportamento social). Os resultados foram publicados no artigo “Unveiling Wasps as Potential Pollinators: Floral Traits and Wasp Sociality Intensify Network Centrality in a Highly Diverse Tropical Ecosystem”. Neste estudo, os pesquisadores consolidam dados sobre interações flor-vespa no Cerrado, um hotspot de biodiversidade brasileiro, para explorar como as características florais e das vespas moldam as redes de interação planta-polinizador (a saber: redes são estruturas ecológicas que mapeiam as conexões entre as espécies de plantas e seus polinizadores animais em uma comunidade). Foi construída uma rede de interação mutualística composta por 185 espécies de vespas e 144 espécies de plantas, que realizaram 728 interações, sendo calculando índices de centralidade das espécies.
O estudo demonstra como as variáveis do ambiente e das flores visitadas influenciam fortemente a posição chave das vespas nas redes de interação das comunidades de Cerrado. Demostra também que as vespas sociais tendem a atuar como “nós centrais” (principal conexão) no processo de polinização de várias plantas. Este papel central significa que certas vespas contribuem de forma desproporcional para a conectividade entre plantas, facilitando a polinização cruzada. Tal descoberta desafia a visão tradicional de que apenas abelhas têm relevância ecológica destacada no processo de polinização, sugerindo que comunidades inteiras de plantas dependem também desses himenópteros (insetos com asas membranosas) menos tradicionais.
A pesquisa coletou dados em regiões de Cerrado altamente diversas que, apesar de sua importância ecológica, sofrem com pressão por desmatamento e mudanças de uso do solo. Entender o papel das vespas nesses ambientes pode ter implicações diretas para a conservação da biodiversidade. Proteger as vespas pode significar preservar “pontes biológicas” entre plantas nativas.
Além disso, os autores argumentam que a socialidade das vespas (ou seja, se vivem em colônias organizadas) pode ser uma chave para sua eficiência como “conectores” na rede de polinização. Essa percepção abre caminho para novas pesquisas sobre como diferentes espécies de vespas contribuem para a manutenção da biodiversidade.
Há também implicações para a restauração ecológica. Projetos de restauração no Cerrado, por exemplo, poderiam considerar a presença de vespas sociais como um indicador de sucesso. Incorporar esses insetos em estratégias de conservação pode favorecer a estruturação de redes de polinização mais robustas.
Segundo a pesquisadora Patricia Morellato, diretora do CBioClima (Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima), “essa pesquisa é fundamental por chamar a atenção para outros animais polinizadores importantes em nossa vegetação de Cerrado, tão biodiversa! O estudo destaca as vespas, que muitas vezes são pensadas apenas como insetos perigosos e que podem nos picar. No entanto, são bons polinizadores! Queremos analisar outros animais negligenciados".
Essa abordagem abre novas perspectivas para pesquisas sobre conservação da biodiversidade, restauração ecológica e manejo ambiental. Compreender a contribuição das vespas pode ser crucial para a polinização de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção, apoiando os esforços de conservação nos ecossistemas biodiversos e ameaçados do Cerrado.
O estudo pode ser lido na íntegra no link: https://doi.org/10.1111/jen.13470





Comentários